

O namoro que inspirou “Chico” pode não ter durado, mas a canção, lançada em 2023 e número um no Brasil, abriu um novo caminho artístico para Luísa Sonza. O flerte virou compromisso com a bossa nova em “Bossa Sempre Nova”, álbum que chega inaugurando 2026 com 14 faixas gravadas ao lado de dois pilares do gênero, Roberto Menescal e Toquinho.
Encontro de gerações no estúdio
Menescal, guitarrista, violonista e coprodutor de oito faixas, assina quatro clássicos da parceria com Ronaldo Bôscoli e também a primeira composição com Luísa. Já Toquinho, último parceiro de Vinicius de Moraes, coproduz as outras seis faixas, incluindo dois de seus sucessos com o Poetinha.
Gravado em 2025 de forma orgânica, com cantora e instrumentistas face a face no estúdio, quase sem cortes ou edições, “Bossa Sempre Nova” evidencia o quanto o estilo nascido no fim dos anos 1950 permanece atual. A voz de Luísa soa direta, leve e natural, como pede a estética sedimentada por João Gilberto.
Selecionado pela própria cantora, o repertório alterna clássicos e canções menos conhecidas, mas igualmente representativas do gênero que levou a música brasileira ao mundo. A exceção é a inédita “Um pouco de mim”, composta por Luísa Sonza e Menescal, escrita durante uma temporada da artista em Los Angeles e inicialmente reservada para seu próximo disco de carreira.
Por sugestão do produtor Douglas Moda, a faixa foi incorporada ao projeto em versão a capella. O áudio foi enviado a Menescal, que construiu a harmonia e o formato ao violão.
Desde 2022, Luísa se define como uma verdadeira entusiasta da bossa nova, frequentadora de lojas especializadas em vinil, inclusive no Japão. O principal incentivador desse mergulho foi o próprio Menescal. Após um encontro no camarim de Paula Toller, o autor de “O barquinho” elogiou “Chico” e sugeriu que a cantora avançasse ainda mais nesse universo.
O que começou como a ideia de uma sessão ao vivo acabou se transformando em um álbum completo, reforçado pela participação de Toquinho.
As sessões com Menescal aconteceram no Rio de Janeiro e reuniram, além do formato voz e violão, formações com grupo, incluindo baixo, bateria, piano, teclados e sopros pontuais. Entre as faixas estão “O barquinho”, “Você”, “Ah, se eu pudesse” e “Nós e o mar”.
Também integra o repertório “Diz que fui por aí”, de Zé Keti e Hortêncio Rocha, registrada apenas com voz e violão, evocando a gravação histórica de Nara Leão, em 1964.
A química levou à inclusão de “Samba de verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, e “Triste”, de Tom Jobim, faixa do álbum “Elis & Tom”, referência afetiva para Luísa.

Com o convite aceito, Toquinho pediu tempo para rearranjar suas seis faixas e manter o alto padrão artístico do projeto. No primeiro encontro em estúdio, escolheu “Águas de março”, deixando claro que o clássico de Jobim não poderia ficar de fora.
A parceria se destaca também em “Carta ao Tom 74” e “Tarde de Itapoã”, ambas de Toquinho e Vinicius de Moraes. Com grupo, surgem “Consolação”, de Vinicius e Baden Powell, “Onde anda você”, de Vinicius e Hermano Silva, lançada em 1953, e o encerramento com “Só tinha de ser com você”, de Jobim e Aloysio de Oliveira.
“Bossa Sempre Nova” confirma que o flerte virou uma relação sólida. Ao unir gerações com respeito, escuta e verdade, Luísa Sonza reafirma que a bossa nova segue atual, viva e sempre nova.
Escute: https://sonza.lnk.to/BossaSempreNova
Fotos de Pam Martins